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Diário do Oficial - Histórias do nosso dia a dia. »

13
Jun

Trinta minutos mais ou menos para chegar até aqui, entre solavancos e desvios. O topo do morro é lindo! Disseram. Eu até acreditei. E mesmo que não fosse verdade, tinha que vir, obrigatoriamente. E se eu me perder e não localizar o endereço? Puxa! Lá está a ruazinha de chão batido e sem saída. Posso ver daqui a viatura da brigada militar e uma ambulância. Vejo também alguns curiosos. O ato de observar as tragédias alheias de forma intencional sempre fugiu do meu entendimento. E agora vou ter que lidar com isso também. Se pudesse, me distanciaria do triste espetáculo, como as lebres ao constatarem que o tigre abateu uma entre elas.

 

Paro o carro em frente ao imóvel, um terreno irregular com uma pequena casa de alvenaria inacabada e sem pintura. Antes que eu consiga me identificar, ouço uma voz. Boa tarde, Doutora. Entrem, entrem! Exclama o pai de Agostinho. Subo com cautelas os degraus de madeira da casa.  Sou acompanhada por dois brigadianos. A Enfermeira fica no pátio, para minha surpresa.

Na salinha com paredes sem reboco, avisto um sofá de cor laranja, rasgado e sujo, além de roupas espalhadas por todos os cantos. Uma televisão muita antiga serve, talvez, de enfeite para a mesa de centro. Desculpe a bagunça! Diz o pai de Agostinho, a adivinhar meus pensamentos.   

 

Ele nos conduz através de um corredorzinho escuro, parando em frente a cortina que cobre a abertura de acesso ao quarto. Faz um sinal de que é ali mesmo, e ergue parte da cortina. Está tudo escuro e silencioso. Não consigo ver nada. Dá para ligar a luz?  Peço ao pai de Agostinho.  

 

Fico sabendo que a luz foi cortada por falta de pagamento. Um dos brigadianos, rapidamente, se adianta e abre a única janelinha daquele quarto. A claridade atravessa a abertura e bate na parede oposta. Vejo, com dificuldade, um colchão no chão. Tem alguém ali, encolhido e envolto em cobertas muito sujas. O mau cheio é insuportável. Há poças de urina, junto a barro e, talvez, fezes. Agostinho bateu a cabeça e ficou lesado. E ele não deixa a gente limpar o quarto. Nem tomar banho ele quer! Diz o pai, em lágrimas, tentando justificar o estado do filho.

 

Agostinho. Agostinho. Pronuncio da forma mais gentil possível, seu nome. Droga! Não se mexe. Agostinho, meu filho? O pai tenta também. O silêncio incomoda. O mesmo brigadiano que abriu a janelinha resolve erguer os cobertores. E o faz com cautela. Acho que mais por nojo do que por respeito. Começo a divisar um corpo. É Agostinho, que deitado em posição fetal, parece perdido em um mar de solidão e sujeira.

 

Agostinho se vira lentamente e nos observa, entre confuso e desconfiado. O meu enjoo, no limite do suportável, é misturado aos sentimentos de piedade e autopiedade. Meu nome é Luíza, sou Oficial de Justiça. Estou aqui para intimar você. O Juiz disse que você deve ir para uma Clínica cuidar da sua saúde. Ele, sem resistência, levanta muito devagar. Caminha a passos vacilantes até a pequena sala, se esquivando de possíveis aproximações, da mesma maneira que o faria um animal ferido e acuado.   

 

Em frente à porta de entrada, se encosta à parede ao lado do sofá. Não tem nem quarenta anos. E aparenta ser um homem de traços delicados. Suas roupas, sujas e rasgadas, são menores, desproporcionais. Por que ele não para de piscar?  O que está pensando?

Os dois Brigadianos ao colocarem as luvas, iniciam uma espécie de ritual para imobilização. Calma pessoal! Minha voz sai mais decidida do que havia previsto. Olho, em seguida, para Agostinho. Por favor, me escuta! Você comerá muito bem, lá. Vão dar roupas novas a você, Agostinho! Venha comigo. Entrarei com você na ambulância. Como um mendigo a suplicar, estendo a minha mão direita. Diferentemente deste, espero algo muito maior do que trocados. Agostinho me observa e, desta vez, sem piscar.

 

Já com as esperanças se esvaindo, sinto um leve roçar de dedos na minha mão. É Agostinho. Parecendo velhos amigos, descemos, lado a lado e de mãos dadas, os degraus daquela casa.  Ele, sem parar de me olhar, entra na ambulância. Ajudo a se deitar. Permite, submisso, que o motorista coloque o cinto de segurança. Enquanto seguro a sua mão, agradeço pela cooperação. Afasto-me e saio rapidamente do veículo.

 

Os envolvidos na diligência assinam o mandado. Onde está o meu carro? É só no que consigo pensar. Ao entrar nele, bato sem querer o cotovelo no volante antes de sentar no banco. A dor não me distrai. Nem as lágrimas que insistem em destruir a minha maquiagem. Vejo que o motorista começa a fechar as portas da ambulância. Agostinho irá para a Clínica. Eu irei ao Fórum devolver a ordem judicial exitosa, com a qual não terei mais vínculo. Contudo, ainda assim, não me esquecerei de Agostinho, que mesmo não pronunciando palavra, disse tanta coisa sobre si mesmo.

                     

Oficial de Justiça - Luciane Obaldia.

 

13
Jun

Em um dia ensolarado, Dorival resolve subir no forro da peça quase concluída, anexa a casa. Minutos antes, reclama do serviço mal feito pelos pedreiros. Letícia, preocupada, pede que o marido espere o retorno deles, na segunda. Ele se recusa, saindo imediatamente sai em busca das ferramentas. Irritada, ela volta para a cozinha. Já é quase hora do almoço, e não pode descuidar das panelas no fogão e das duas crianças pequenas. A vida corre simples e sem muitos contratempos. Dorival, como motorista de ônibus, faz milagres com o salário, palavras muitas vezes ditas por Letícia aos familiares e amigos.  Típico trabalhador, não possui outra ambição senão a de “melhorar” a casa e cuidar da família. Letícia confia nele. As crianças confiam nele.

 

No momento em que Letícia pensa o quanto seu marido é bom, ouve um forte barulho. Instintivamente, corre até a peça dos fundos. A visão a paralisa - no chão, em meio a pedaços de forro e concreto, está Dorival. Ela tenta gritar, mas a dor a impede. As crianças aparecem. Letícia as empurra para fora, e pede que busquem ajuda. Aproxima-se, sem coragem para tocá-lo. Só pronuncia o seu nome repetidamente, pedindo mentalmente que ele faça mais um milagre – levante e diga que está tudo bem. Contudo, Dorival é só silêncio. Alguns vizinhos aparecem. Aproximadamente vinte minutos e trinta segundos depois, a ambulância chega. Dorival tem traumatismo craniano e outras fraturas. Após três longos dias, o médico do hospital diz a Letícia que Dorival não voltará mais a ser como antes, pois o dano é irreversível. Letícia ouve em silêncio.

 

Quatro meses do acidente, horas antes de buscá-lo no hospital, ela vai até o fundo do quintal e pergunta a seus filhos:  Vocês gostam muito de brincar embaixo desta árvore, não é? As crianças confirmam com a cabeça. Pois bem, papai virou uma árvore como esta. Ele não vai responder nem abrir os olhos quando vocês falarem com ele, mas irá sentir a presença de vocês, exatamente como esta árvore. As crianças sorriem, inocentes. E Continua: “Vamos regá-lo sempre com o nosso amor e carinho.”

 

Aproximadamente oito meses depois, sem avisar previamente, lá estava eu com um Mandado de Citação para Dorival. A perícia havia sido marcada para dali duas semanas. Letícia me contou tudo o que havia acontecido antes de entrarmos na casa. Resignada com seu novo destino, conduziu-me até a porta principal que dava para a sala de estar, onde vi Dorival em uma espécie de cama de hospital, meio encolhido e com uma sonda no nariz. Causou-me estranheza o fato de ele estar na sala e não em algum quarto. Ela, parecendo adivinhar meus pensamentos, declara: Ele é o homem da casa e não vai ficar escondido. Quem vem aqui tem que passar por ele. Sua voz soa decidida e amargurada.

 

Lembro, naquele momento, a explicação que ela havia dado a seus filhos sobre Dorival ter virado uma árvore. Frágil e inerte, ele parece mesmo ter se transformado. Entretanto, não em uma árvore qualquer, de um quintal qualquer. Rodeado por seus dois amorosos e sorridentes filhos, e sua dedicada mulher, transformou-se em uma árvore cheia de amor e esperança, ainda que o próprio Dorival não tenha a mínima noção disso.

 
Oficial de Justiça - Luciane Obaldia.