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12
Mar
BATISMO DE FOGO

Marta Rolim
Oficiala de Justiça
Comarca de Porto Alegre

Há alguns anos, por volta de 2014, eu era bem novata na profissão. Recebi um mandado em plantão: buscar e entregar uma criança ao seu pai. Um menino que cursava o ensino fundamental. Primeiramente encontrei o pai, o qual, devido a uma enfermidade, não podia caminhar. Só tomei conhecimento dessa condição do pai ao realizar a diligência, o que aumentou a minha preocupação, porque o pai não poderia pegar seu filho nos braços ou se aproximar dele espontaneamente. 

Nos dirigimos à escola do filho, o genitor em seu carro, dirigido por um terceiro. O menor não se encontrava na escola. Ato contínuo, rumamos para um posto da Brigada Militar. Lá, disponibilizada a viatura, nos dirigimos à casa da mãe da criança. Chegando ao domicílio, após subir uma propriedade íngreme, com várias casas da mesma família, encontro a criança. Explico ao menino que seu pai está na frente do terreno, no carro, e que quer vê-lo. 

Na mesma hora a criança reage adversamente, dizendo não querer ver o pai. Tento acalmá-lo, e pergunto se ele não está sendo ameaçado por algum familiar. Imediatamente a criança diz que não sofre ameaça nenhuma, que era tudo mentira do pai. No ínterim, pergunto pela mãe dele e vamos juntos até ela. Para minha surpresa, a mãe estava com gestação a termo, barriga imensa, exatamente com nove meses de gravidez. Suo frio. A reação da mãe é a mesma da criança, fica nervosa, não quer que o filho vá com o pai. A mãe entra na casa e demora a voltar.

Nisso, convenço o menino a conversar com o pai. Vamos até o carro. O menino chora, acusa o pai de mentir. Pergunto ao pai se, face a angústia da criança, deseja desistir da apreensão e entrega do menor. Não deseja desistir. A mãe chega. Mãe e filho choram muito. Nesse momento, me sinto em uma encruzilhada terrível, caminhando à beira do abismo, entre o desespero da mãe prestes a dar à luz e a angústia gritante da criança, a impossibilidade do pai de agir de forma mais ativa e a ordem legal a ser cumprida. Então, conversei diretamente com a mãe, pedindo a ela que acalmasse seu filho, que os seus direitos de mãe continuavam, que o filho estava indo com o pai e não com um bandido. Pedi, também, ao menino, que ajudasse a acalmar a sua mãe.

Foi tenso, mas eles se acalmaram. A criança entrou voluntariamente no carro do pai. Após o carro partir com a criança, a mãe estava bastante abalada e chorando de novo. Orientei-a quanto aos seus direitos, procurando sempre tranquilizá-la. Perguntei como estava se sentindo fisicamente, se queria que eu chamasse o SAMU. Recusou atendimento. 

No outro dia liguei para ela e estava bem mais calma, dialogando com serenidade, ficando bem ciente dos seus direitos, já tendo conversado com o filho por telefone. Na certidão fiz constar tudo, inclusive sua condição de provável parto iminente. Isso que chamo de batismo de fogo de uma Oficiala de Justiça. Essa não é uma história de gênero, mas foi uma servidora que lidou com essa situação extremamente delicada.

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