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12
Mar
Em memória de Mara

Madu (Maria Duarte de Oliveira)
Aposentada, Comarca de Porto Alegre

Julho de 1996. Manhã fria, com um sol ainda tímido clareando as vielas sonolentas do bairro Guajuviras, na periferia de Canoas. Eu havia assumido como Oficiala de Justiça em novembro de 1995 e, desde lá, a triste realidade daquela área periférica, pobre e massacrada pelo topo da pirâmide social, fazia parte da minha rotina no Poder Judiciário do RS. Mas, especialmente naquela manhã, eu vivenciaria uma experiência que marcaria, para sempre, a minha vida. Não somente a profissional, mas a minha vida em todos os aspectos. 

Quase finalizando o roteiro, passava do meio dia, chego a um prédio no final da avenida principal. Era a área mais carente da invasão - o setor 06. Apesar do sol, fazia muito frio. Bato na porta e uma moça, muito magrinha, abre. Uma moça preta. Uma moça com um olhar triste. Converso com ela, mostro a minha carteira funcional e o mandado. Um mandado de Execução do Juizado Especial Cível, no valor de DEZESSEIS REAIS. Mara, a moça com o olhar mais triste que eu já havia visto, permite que eu entre. A partir desse momento, a minha vida sofreu a grande transformação. Mara, chorando, me leva ao único quartinho do pequeno apartamento e, lá, eu vejo três crianças dormindo no chão. Nada de camas, nada de cobertas. Nada de colchões. Nada de piso. Dormiam no concreto duro e gelado. Dormiam abraçados uns aos outros. 

Mara contou que havia comprado uma sombrinha em uma loja de "turco" no centro de Canoas, ficou desempregada e não pôde pagar. Recebeu ameaças diversas, por conta de tal dívida. Guardei o mandado após a assinatura dela e disse que iria ajudá-la a arrumar umas faxinas. Ficou feliz! Saí de lá, fui a um mercado próximo e fiz um "ranchinho" básico. Comprei almoço para a família, pois estavam em jejum. Cheguei em casa e pedi para a minha mãe fazer vários lençóis e fronhas (mãe costureira). A mãe separou muitos tecidos, foi para a máquina e costurou incessantemente. Separei muitas roupas e brinquedos das minhas filhas. Consegui cobertores e travesseiros. Paguei a dívida de Mara. Arrumei emprego para Mara. Comprei material escolar para os filhos de Mara. Os colegas de Canoas também ajudaram muito. Mara foi juntando dinheiro e colocou piso no apartamento. Mara foi mobiliando o apartamento. Mara começou a sorrir. As crianças, agora, tinham camas. Tinham comida e roupas quentes. Estudavam. Eu saí do Guajuviras. Os anos passaram. 

Certo dia, eu retornei ao bairro, no setor 06, cumprir um plantão. Reencontrei uma das crianças de Mara. Agora, uma moça. Me deu um forte abraço e contou que o mano mais velho estava trabalhando em um posto de gasolina e ela em uma lojinha no bairro. Todos estudavam.  “E a mãe? Como está a Mara?”. Ela silenciou e lágrimas brotaram de seus olhos. “A mãe morreu. A mãe começou a ficar fraquinha. Não comia. E era câncer. Mas a mãe cuidou de nós até o fim. Eu sinto falta da minha mãe”. 

Vocês lembram do abraço que eu dei na Mara, lá no início da minha história? Eu termino essa história, contando que dei um demorado e forte abraço na filha de Mara. E vi, nos olhos daquela mocinha preta e magrinha, os mesmos olhos tristes de sua mãe. E chorei! Chorei, abraçada à filha de Mara. E foi como se eu estivesse abraçando, de novo, a mãe/mulher, magrinha e desesperada por não ter como pagar uma dívida de DEZESSEIS REAIS. Dedico essa história real às Maras de todo o Brasil. E que nós, Oficiais de Justiça, não sejamos, somente, a longa mão do juiz estendida na rua, mas que sejamos abraço para aqueles que necessitarem.

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