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31
Mar
Fé inabalável dos Oficiais e Oficialas de Justiça

Marja Lopes de Lima
Oficiala de Justiça
Comarca de Porto Alegre

A positividade que me contagia herdei de meus familiares, e a fé, que é ter a certeza daquilo que não vemos, mas acreditamos que ocorrerá. Por vezes, ela desafia a razão aos olhos humanos. Não estou falando de religião, que acaba por afastar as pessoas, e sim de um conceito que faz acreditar que de fato e de verdade, não importando as circunstâncias, aquilo vai acontecer!

Podia aqui enumerar uma lista de mandados em que não possuía meios de cumprimento (falta de força pública, por exemplo), mas por ter confiança, foquei na força da ordem, que diz " cumpra-se" e fui mesmo com medo, porque tive certeza que ia conseguir. Existem muitos mandados que não podem esperar, sob pena de termos uma avalanche de tragédias. Não sou mais especial que meus colegas, mas basta conversar um pouco que verificamos que os Oficiais de Justiça são pessoas de muita fé. Isso, concluo depois de anos, observando a rotina de muitos e suas manifestações. 

Eis que, ao receber mandados, por vezes, sentimos uma "carga" que sim, nós sentimos! Ignoramos os obstáculos e imediatamente, ao lermos o mandado, já começamos a fazer um checklist de todos os ensinamentos sobre aquela matéria (vejam, não só os ensinamentos de matéria jurídica, mas ensinamentos da vida, para que nada possa nos surpreender). Assim, passamos a organizar a logística, de forma natural, de forma a irmos desmanchando os nós daquele conflito. 

Quem observa grandes diligências, que envolvem força pública, ambulância, conselho tutelar, assistentes sociais entre outros, não imagina o quanto há de esforço de um Oficial ou, mais de um, pra que tudo saia em harmonia. Ninguém vê toda a preparação envolvida, e a força sobrenatural, por vezes, para fielmente cumprirmos a cada ordem. Podia enumerar muitos mandados impossíveis de cumprir. Mas lembro-me de minha primeira diligência, com o Batalhão de Operações Especiais que, recordo, eu animada, e meu colega numa paz inabalável, fomos chamados ao Foro de Nonoai, para recebermos o mandado e orientações da Magistrada, que informou ser a situação muito delicada, que estava tomando proporções gravosas. 

Confesso que minha coragem foi se retirando da sala, a cada palavra que ouvia. Tratava-se de um mandado de demanda possessória, precisaríamos usar o megafone, porque envolvia um número muito grande de pessoas que estavam no local, e deveríamos agir, imediatamente, tendo em vista a conflitos já ocorridos, inclusive noticiados, pela imprensa. 

Quando lá chegamos, muitos ônibus, caminhões do referido batalhão e um número grandioso de policiais de preto. Então, nos reunimos, previamente, com o Promotor de Justiça, armado, que estava no local, e com o BOE. Estávamos de um lado e os destinatários do mandado estavam no lado oposto, bem distante. Então, de um lado ao outro lado, o Batalhão (com seus escudos e armas) foram ao nosso lado, não na frente - minha vontade era apertar no botão e sumir daquele campo de guerra, mas imitei meu colega, que estava bem normal. 

A cada passo, sim, senti medo, e quem nunca sentiu? A fé não é a ausência de medo, a fé é seguir em frente mesmo, com medo. Então, aquela travessia chegou ao fim. Todos viram e ouviram em minha voz a sinceridade de quem queria semear a paz. A cada palavra, mais dificuldade de fazer a minha voz ser externalizada. Não conseguimos ver certas coisas, mas sentia naquele momento, uma coragem de Deus (que fazia ser possível minha respiração ser mais profunda), e talvez minha inexperiência, visível ao gaguejar, em cada palavra, tenha contribuído para acalmar os ânimos de todos. 

Houve o cumprimento sem intercorrências. Depois de ler algumas histórias de minhas colegas na Campanha da Abojeris pelo Mês da Mulher, veio em minha memória, o que a Bíblia nos diz sobre a batalha de Davi e Golias (1 Samuel,17). Ninguém tinha coragem de enfrentar o gigante Golias, mas Davi não olhou para o tamanho do gigante, ele olhou para o tamanho de Deus, infinitamente maior (olhou pra cima e pra frente), que qualquer obstáculo. Por vezes a vida nos apresenta situações de batalha, de deserto, mas aprendi que todas as situações servem para nossa evolução, para sermos melhores amigos, melhores colegas, melhores com nossos familiares, melhores como pessoas, melhores do que fomos, no dia de ontem. Já que abordei a fé, e estamos, na semana da Páscoa, principal celebração do ano litúrgico cristão e também a mais antiga e importante festa cristã, desejo a todos uma Feliz Páscoa, desejando que possamos levar um refrigério a todos que nos cercam!

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