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18
Mar
Uma porcaria de diligência

Cerise Mattos
Oficiala de Justiça
Porto Alegre

Se a profissão de Oficial de Justiça é complicada quando já decorreram anos de experiência, imagina quando são apenas alguns dias na função. Sim, com poucos dias de profissão fui contemplada com uma diligência de Busca e Apreensão, oriunda de um processo de divisão de bens de um casal em processo de divórcio. Recebido o mandado, sentindo-me a Kate Marrone em pessoa (entreguei a minha idade), solicitei apoio de um colega mais próximo, pois assumimos no mesmo dia e tentávamos sempre nos ajudar, principalmente nos momentos críticos. Um adendo sobre o colega (ele exigia a identidade das partes e anotava no mandado o número do RG, ainda bem que nossa dupla durou menos que um ano, pois mudei de Comarca). Brincadeiras à parte, adoro o colega em questão, seguindo na diligência esta Oficiala entrou em contato com a parte interessada na medida, a fim de organizar a diligência, agendando data, e solicitando o que fosse necessário para o cumprimento efetivo da busca. 

Vamos ao mandado, uma medida de busca e apreensão de porcos, sim, porcos, bichinhos rosados e gordos, que fedem muito, ou não, mas no caso fediam muito. Pensei, porcos, vamos buscar porcos, de que maneira faremos isso. Pergunta aqui e ali, lê na Lei, pega os cadernos do concurso, então solicitei o veículo apropriado à parte, um caminhão aberto ou fechado, e pessoas para auxiliar na medida, uma vez que, pela informação da parte autora, seriam muitos porcos. Solicitei o apoio da BM, devido à complexidade da situação, pois a parte que se recusava a entregar os porcos não era, pelo relato da parte autora, uma pessoa de paz, e possuía arma de fogo, não aceitava o divórcio, enfim, pacote completo de uma DR em curso.
Agendei a medida para um horário bem cedo, por volta das 06h30min ou 07h, e no dia marcado, eu, na ilusão de que deveria sempre trabalhar nos “trinks”, de saltinho, toda na estica, e o colega, mais despojado, mas todo arrumadinho também, chegamos ao local acompanhados da BM, e logo avistamos a parte interessada, descendo de um carro.

Teve início a bagunça, perguntei sobre o caminhão e as pessoas para auxiliar, pois não avistei nada disso, ao que a parte me respondeu: “trouxe um ônibus de um amigo, emprestado, e eu mesmo dou um jeito de carregar os porcos”. Aquela palavra me veio à mente, engoli e calei.

Na casa, bati palmas a fim de chamar a parte contrária. Fui recebida, se não a tiros, quase. Me faltava experiência, mas a lábia nunca me deixou “a ver navios”, conversei, conversei, conversei e, por fim, convenci o dito cujo a ingressar no chiqueiro, digo, na casa, e aos fundos, no chiqueiro. Chegando lá, por segundos parei na entrada e percebi que meus dias de Oficiala de Justiça, ou estavam contados, ou eu realmente nasci para essa função. 

Relato aqui alguns detalhes técnicos impossíveis de compreender para esta servidora, naquela ocasião: as partes queriam a divisão dos porcos em número igual (até ai tudo bem, é justo), mas desde que também fossem em igual quantidade, as porcas e os porcos, as porcas grávidas, e as não- grávidas, as porcadinhas recém nascidas, bebês, e as porcarias mais velhas, instaura-se o meu desespero. Quase rezei para algum santo me ajudar, mas como não sou dada a essas magias, pois eles não querem contato comigo, olhei para o meu colega, que a esta altura estava tomado de uma aflição medonha, e lhe disse: eu não sei distinguir um porco de uma porca, muito menos saberei distinguir uma porca grávida de uma porca não-grávida, todas são gordas, colega, o que eu faço? Ambos, incipientes, novatos, principiantes mesmo, resolvemos ligar para o juiz responsável, a fim de informar da dificuldade no caso, pois não tínhamos conhecimento do sexo dos anjos, e as partes não estavam em acordo para colaborarem. 

Incito-vos, colegas que estão acompanhando a minha saga, a pensarem na resposta. Exatamente, acertaram, esta foi a resposta, a qual trago aqui, não nas palavras originais, pois não recordo, mas o conteúdo jamais esquecerei. Assim os leigos no assunto podem saber das nossas dificuldades na profissão. Cara Oficiala de Justiça, a diligência é de competência do Oficial, não posso auxiliar na diligência, cumpra o mandado exatamente na forma determinada. 

Retornamos, eu e meu colega, ao chiqueiro, antes sentamos um pouco e eu quase chorei, mas novamente engoli o sentimento, e nesse exato momento, aprendi a importância da respiração na profissão de Oficiais de Justiça, puxei o ar, levantei e me dirigi com sangue nos olhos ao chiqueiro, lá chegando falei alto, mas muito alto, alto o suficiente para assustar as partes, e fazer com que entendessem que eu era a Oficiala, que o mandado seria cumprido, e que eles iriam, sim, colaborar. Percebi uma certa satisfação no meu entorno, daqueles que estavam esperando essa atitude, até eu acreditei em mim nessa hora.

Passamos a contar os porcos, e tentar separá-los, mas eles se mexem, eu não contava com isso, e eles, os porcos, não me obedeciam, eu também não contava com isso, pois eu sou a lei, todos deveriam obedecer aos Oficiais de Justiça. Sugeri colocarmos um a um na rua, assim foi feito, ficando no chiqueiro os da parte ré, e na rua os da parte autora, ainda que a porta do chiqueiro fosse enorme, nos auxiliamos no bota-fora dos porcos.

Mas a parte autora, na pressa, pois já estava também com medo do desfecho, foi empurrando os porcos para dentro do ônibus, o que eu não havia determinado. Cagou tudo, pois eu não havia observado o detalhe de anotar o número de machos e fêmeas, grávidas, não grávidas, já havia me perdido, como iria certificar isso. 

Na loucura da parte ré, eu me perdi, pois a parte gritava e chorava incessantemente, não aceitava a medida de bom grado, apenas obedecia, sem colaborar, e mais atrapalhava, pois a todo o momento tentava me convencer a não levar a cabo a diligência, a todo o momento me dizia que essa ou aquela porca estava grávida, me acusava de dar mais porcas grávidas para a outra parte, me acusava que perderia muito dinheiro com o meu serviço porco, pois eu estava dando à outra parte porcos prontos para fazer mais porcos (quando será que porcos estão prontos para fazer mais porcaria? Como sabemos disso?), enfim, a diligência correu dessa forma, aos gritos, com choro, os nervos à flor da pele.

Enfim, mandei (a essa altura eu já conseguia mandar em alguma coisa) a parte tirar todos os porcos do ônibus e colocar os bichos próximos, sem que fugissem (já passei a gostar de salame, linguiça, salsichão, costelinha de porco, qualquer coisa que transformasse aquelas bolinhas rosadas e cinzas em algo comestível e sumissem da minha frente). Mas nada estava assim tão fácil, pois um porco, um porquinho belo e faceiro, trancou embaixo da direção do ônibus, e travou tudo.

Não preciso dizer que, com aquele porco ali trancado berrando, o ônibus não poderia sair, mas nem dei bola, pensei, vamos girar o volante, que é enorme, com toda força, ele há de explodir, então sairemos (óbvio eu só pensei nisso, jamais manifestei verbalmente). 

Seguimos na contagem por horas a fio, até que acertamos as pontas, digo, as porcas e porcos, fizemos a verificação das porcas grávidas, dos porcos fresquinhos, dos porcos prontos para virar linguiça, dos porcos em riste para procriação, tudo acabou andando, mesmo aos trancos e barrancos, pois ao final do dia o cansaço era tanto, o fedor era tanto, a vontade de chorar era tanta, que até a parte ré, que incomodou tanto, sentiu pena de mim.  

Encerramos a diligência quase no final do dia, ainda em tempo de voltarmos ao Fórum, fedida, cansada, com fome, mas confiante que sim, essa profissão cabe em mim tanto quanto eu me orgulho imensamente dela.

Na volta para casa pensei, sim, eu amo ser Oficiala de Justiça. E, ainda hoje, digo, que venham mais e mais buscas, mais e mais diligências na quais terei que exercer a minha paciência, o meu poder de convencimento, persuasão, e possa fazer a máquina funcionar.

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