Tokenmaxxing: tendência do Vale do Silício aumenta pressão por produtividade no trabalho

Imagem: Freepik

O Jornal Zero Hora realizou uma pesquisa observando a tendência crescente do Vale do Silício, chamada de “tokenmaxxing” e como ela aumenta a pressão por produtividade no trabalho. A expressão descreve uma predisposição crescente em que profissionais, principalmente da área de tecnologia, buscam otimizar o uso de ferramentas de IA generativa, medido pela quantidade de “tokens” processados.

De forma mais generalizada, a expressão se baseia em quanto mais tokens consumidos, maior seria a produtividade. Ao menos sob uma lógica superficial, que mescla volume de processamento com geração de valor. Embora sejam frequentemente comparados a uma moeda, os tokens não têm valor próprio, eles são unidades técnicas que os modelos de IA utilizam para processar a linguagem. Cada palavra, fragmento de palavra ou símbolo é convertido em tokens para que o sistema consiga interpretar e gerar respostas. 

“O token pode ser visto como as palavras ou expressões que são processadas pelo modelo, tanto na entrada quanto na saída” explica o doutor em Ciência da Computação e professor do Lato Sensu da Unisinos, Rafael Kunst.

A sua correlação com dinheiro surge porque o volume de tokens está diretamente ligado ao custo dos serviços de IA. Plataformas cobram pelo processamento, o que transforma o uso em um indicador indireto de gasto, “o token não é uma moeda, mas a quantidade utilizada é uma das formas de monetização. Quanto mais tokens, maior o custo daquela operação “, detalha o professor. Esse vínculo entre uso e custo, segundo o especialista, fez com que os tokens deixassem de ser apenas um conceito técnico e passassem a ocupar um lugar simbólico na cultura de desenvolvimento com IA.

Se a questão econômica ainda está em aberto, a psicológica já tem respostas mais nítidas. Denise Milk, psicóloga especialista em saúde mental no trabalho, identifica no tokenmaxxing um padrão que vai além da produtividade e pode comprometer o trabalhador, segundo ela “a possibilidade de produzir mais em menos tempo com ajuda da IA tende a elevar a pressão interna por desempenho. A tecnologia altera a referência subjetiva do que passa a ser considerado entrega adequada. O que antes era visto como bom desempenho pode rapidamente virar o novo mínimo esperado”.

Quando isso acontece, o ganho de produtividade deixa de ser um recurso de apoio e passa a ser incorporado como uma obrigação silenciosa. O problema, segundo a especialista, não está na ferramenta em si, mas na forma como ela redefine a régua de exigência, sem que isso seja percebido pelo profissional, pela liderança ou pela organização. Denise vê um paralelo direto entre o uso intensivo de IA e os mecanismos de recompensa das redes sociais, “ambos operam com reforços rápidos: resposta imediata, sensação de ganho de eficiência, redução da incerteza e micro-recompensas por resolver algo com agilidade. Do ponto de vista cerebral, isso aumenta a probabilidade de repetição do comportamento”, explica.

Esse ciclo pode levar ao que a psicóloga chama de empobrecimento progressivo da autonomia cognitiva, pois “a pessoa passa a sentir que só consegue começar, organizar, escrever ou decidir com a mediação da ferramenta. O risco maior não é apenas usar muito, mas perder confiança na própria capacidade de pensar sem apoio constante” alerta Denise. Com informações de Zero Hora. 

Para a Abojeris, a chegada do processo eletrônico e o uso indiscriminado da tecnologia no judiciário causaram uma revolução na organização do trabalho e no cotidiano dos Oficiais e Oficialas de Justiça. Essas ferramentas aceleraram etapas do processo e, por consequência, aumentaram o volume de tarefas, mesmo sem haver um aumento uniforme no quadro funcional. Outro aspecto a ser considerado é a jornada, que deixou de ser respeitada. Em muitas ocasiões, os mandados e comandos judiciais são produzidos e disponibilizados aos servidores durante a noite, madrugada, feriados e até finais de semana. Isso sem contar que os indivíduos que integram os processos demandam os profissionais eletronicamente em qualquer dia e horário, como se os servidores fossem uma espécie de balcão virtual permanente. 

Também é importante salientar que essa mudança foi acelerada pela Pandemia de Covid-19, e o quadro funcional não teve o treinamento necessário para lidar com as tecnologias, fato que pode ser observado nos diversos erros e equívocos produzidos, que, além de gerar retrabalho diariamente, também colaboram para emperrar a máquina e acumular mais tarefas. Todos esses fatores têm causado um volume crescente de atividades represadas, que está refletindo na saúde dos servidores, que, mesmo atuando em ritmo intensificado, não conseguem superar o volume de trabalho. O reflexo dessa alta demanda tem sido verificado na saúde dos profissionais, que necessitam de acompanhamento médico, uso de medicamentos e, em alguns casos, até afastamento.

Diante deste cenário, é importante que o TJRS tenha uma atenção especial para esse fenômeno e faça os ajustes necessários para que o quadro funcional seja proporcional à demanda de trabalho, para que, a sociedade tenha os serviços prestados com qualidade e os trabalhadores consigam desempenhar as suas funções sem abalar a sua saúde.    

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